sexta-feira, 5 de outubro de 2012

[Concurso Fiasco] Morte no RPG


 Todas as coisas vivas inevitavelmente morrem. Isso inclui personagens de RPG, que vêm à vida através de grande esforço e dedicação de jogadores e narradores, quase sempre destinados a grande feitos, vitórias épicas, situações complexas e envolventes até que...morrem. Pode ser cumprindo um grande objetivo, numa luta épica impossível de vencer ou através de uma falha miserável de dados na situação mais vexatória possível. Mas um dia todos morrem. Por que? Como encarar algo assim? Como o jogador pode se preparar para esse momento? Como o mestre pode conduzir uma morte devidamente impactante?

Primeiro, não, não adianta argumentar que seu personagem é o Predestinado, The Only One ou Messias Salvador da Pátria. Ele tem que morrer. Uma parte inevitável da vida de personagens heróicos envolve correr riscos cada vez maiores, e é impossível escapar deles para sempre; uma hora ou outra, você vai encontrar mais do que pode peitar. Ir contra essa tendência tornaria seu personagem invencível e chato, e logo não despertaria mais nenhum interesse em jogar com ele.

Como saber se é hora de mandar seu personagem pra terra dos pés-juntos? Em geral, essa decisão cabe ao narrador, mas os jogadores podem conversar com seu mestre sobre isso. Se o personagem alcançous poderes épicos, atingiu grandes objetivos, está com a vida mansa e plenamente satisfeito, então já deu, hora de ir pro limbo. Prolongar as aventuras dele seria possível, mas não tão divertido.

E como morrer?

Pense na morte de grandes heróis da literatura. Sherlock Holmes morre em combate contra seu arquiinimigo, o Dr. Moriarty. Hercule Poirot morre ao cometer um assassinato para capturar seu derradeiro assassino. Arthur de Camelot morre em duelo com seu nêmese, Mordred. Superman morre defendendo sua cidade de uma ameaça imbatível (certo, depois ressuscitaram ele, mas a morte foi marcante). Todas essas mortes impactaram fortemente o cenário, muitas vezes encerrando de vez as tramas. Essa é uma morte com significado. Se seu personagem morre assim, você deveria ficar orgulhoso dele. A dica para os mestres é tentar, na medida do possível, matar os pjs dessa forma.

Mortes banais também podem ocorrer. Aquele bárbaro de 10°nível ainda pode ser morto por um ataque decisivo de um kobold, aquele vampiro ancião ainda pode cair diante de um neófito esperto. Ninguém é invencível, ou pelo menos não deveria ser. Mortes assim tendem a surpreender e até frustrar os jogadores, mas mestres rigorosos podem usá-las para confrontar os personagens com sua própria mortalidade, ensinando uma lição a jogadores temerários que se acham invulneráveis.

Mas a morte não precisa ser dos pjs.

O narrador pode matar pdms também, e alguns tem verdadeira compulsão em fazê-lo. Animais familiares, companheiros da natureza, mascotes, aliados, familiares, namoradas, todos esses são alvos. Nas HQs e em alguns animes, os heróis mantêm suas identidades reais secretas para preservar seus entes queridos de serem atacados por algum inimigo astuto, mas no RPG poucos jogadores tendem a fazer o mesmo. Nesse caso, não podem reclamar quando o mestre lhes mostra a cruel realidade do mundo quando seu famoso e superpoderoso mago encontra a própria estripada e retalhada numa casa sem proteção nenhuma.

Mas no caso de mascotes e outros animais aliados, que são comprados como vantagem, não seria covardia do mestre matá-los logo de cara? Há exceções, mas em geral, a resposta é não. Seu animal é uma vantagem importante, algo que outros personagens não têm, e é sua obrigação cuidar dele. Como diria Eddard Stark, "Você o treina, você o alimenta, e se ele morrer, você o enterra." Seu aliado não é somente uma arma em combate, é alguém pleno de necessidades, vontades e desejos, além de ter uma expectativa de vida como qualquer coisa viva. Cachorros, gatos, lobos, até mesmo dragões, nenhum deles vive para sempre. E se você os usa em combate indiscriminadamente, eles viverão ainda menos.

Longe de pôr um fim à carreira do personagem do jogador, a morte de pdms pode dar nova motivação para aventuras. Vingar a morte de uma namorada, treinar outro mascote, descobrir o assassino de seus pais ou ficar mais poderoso a fim de evitar novas tragédias, todas essas são excelentes motivações para levar seu personagem a um novo patamar de interpretação.

A morte de inimigos também não deve ser algo banal e sem significado.

Se você passa dias, meses e talvez até anos perseguindo um inimigo, como deveria agir quando finalmente o mata? Lamento, mas perguntar "quanto de XP eu ganhei?" é a pior reação de todas. Frieza ou descaso também são bastante inverossímeis. Após finalmente vencer o duque de guerra que aterrotizava seu povo, seu personagem pode ficar aliviado, exultante, exausto ou até mesmo triste, mas nunca indiferente.

Essa foi uma reflexão breve e apenas introdutória a um importante fato da vida que muitas vezes é subestimado nas mesas de RPG. Há inúmeras situações a serem ponderadas, e ninguém melhor do que você mesmo para julgar quais as reações apropriadas nas mortes que ocorrerem em suas mesas de jogo. Mas pense nelas assim mesmo, não ache apenas natural matar ou morrer. Valorize a vida de seu personagem e também as dos pdms.

Parafraseando 007, viva e deixe morrer.


Artigo enviado por: 
Alessandro Oliveira (Alexyus)
Moderador na Fale RPG 



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